Uma leitura sobre o eleitor

PREFERE O MAIS OU MENOS

Quem é o eleitor brasileiro? Esta pergunta, que é objeto central de interesse das campanhas eleitorais, merece uma reflexão diferente da que fazem os pesquisadores, que concentram sua atenção sobre aspectos de sexo, idade, renda e classe social. A melhor resposta pode ser dada pela leitura de alguns ensaios clássicos de antropologia e sociologia, entre os quais os produzidos por Darcy Ribeiro, em O Povo Brasileiro, J.O. de Meira Penna, em seu vigoroso Em Berço Esplêndido ou Roberto DaMatta, em Carnavais, Malandros e Heróis e O que faz o Brasil, Brasil?, para citar apenas três contemporâneos analistas da alma brasileira.

Um corte diagonal sobre o caráter nacional pode ser a pista para se desvendar os traços psicológicos do brasileiro que tomará a decisão de eleger o mandatário da Nação, os governadores e os representantes no Parlamento. Antes, há de se fazer a ressalva de que milhares de eleitores estarão fora do traçado sócio-psicológico aqui descrito, porque incorporam heranças culturais de outros povos. A racionalidade dominante na cultura anglo-saxã, por exemplo, contrapõe-se à emotividade e ao arcabouço criativo-festivo que influencia comportamentos, ações e decisões do homem dos Trópicos.

A tipologia humana essencialmente brasileira se rege por um alfabeto nítido que começa com a parte mais visível, que é a cor da pele. Os morenos e os pardos, que carregam a mistura do sangue do branco colonizador, do negro e do indígena, são a própria expressão da cultura do mais ou menos que sua pele exibe. “Quantas horas trabalha por semana? Mais ou menos 40 horas. É religioso? Sou católico, mas não praticante. Ou, ainda: sou ateu, graças a Deus”. Ora, a tendência de querer ficar no meio termo ainda é reforçada pela condição de contemporizador, que transparece nas freqüentes locuções “deixar estar para ver como fica”, “deixa pra lá”, “fulano está empurrando com a barriga”. Não por acaso, foi assim empurrando que o presidente Fernando Henrique conseguiu adiar tantas coisas importantes, como a reforma tributária.

Também não por acaso, 65% dos eleitores, a menos de três meses da eleição, ainda não escolheram seu candidato à presidente da República, o que farão nas últimas semanas antes do pleito de outubro. A indicação de mudança de voto recebe altos índices de intenção, reforçando os traços de incerteza e dubiedade que caracterizam o perfil do eleitor, fruto, aliás, dos elementos de improvisação que se fazem presentes no caráter nacional. Há nisso alguma indicação de displicência? Sem dúvida e este é outro matiz do nosso perfil. As decisões, que identificam uma forte cultura de protelação, são deixadas para a última hora na esteira de um comportamento que se identifica com um misto de lerdeza e negligência, despreocupação e negação de critérios de prioridade. Quem não tem na ponta da língua exemplos de obras mal construídas, trabalhos mal feitos, acabamentos defeituosos, sujeiras nos lugares públicos?

O brasileiro é imediatista. Tem prazer pelas coisas que lhe trazem conforto ou benefício imediato. Daí não se interessar pela macro-política, a política dos grandes projetos, das grandes obras que gerarão efeitos benéficos no longo prazo. Mas é exigente em relação às coisas de seu cotidiano: a escola perto da casa, o transporte fácil, a segurança na rua, a comida barata, o emprego perto de casa. Sob tal aspecto, os candidatos terão de contemplar esses contingentes eleitorais – que constituem a grande maioria – com propostas de fácil compreensão e alto impacto para o bolso.

A incerteza, traço cultural do caráter nacional, é visível nas mudanças de voto que o eleitor é capaz de fazer até o momento de chegar à urna. Argumentos fortes acabam derrubando convicções não estruturadas. Percebe-se que freqüentemente o eleitor se motiva pela simpatia e empatia que o candidato irradia. Trata-se, assim, de uma cooptação passível de verificação. Nesse sentido, as pesquisas de intenção de voto aferem muito mais a visibilidade do candidato do que a efetiva decisão de voto. É como se o eleitor dissesse: eu vi o candidato, está bem na televisão, fala bem etc.

Deus carimbou alguns povos com tintas muito acentuadas. Diz-se que aos gregos concedeu o amor à ciência; aos povos asiáticos, o espírito combativo; aos egípcios e fenícios (sendo estes últimos os atuais libaneses), imprimiu a marca do amor ao dinheiro. Aos brasileiros, Deus deu a capacidade de improvisar mais que outras gentes. Não é de todo arriscada a inferência de que, nessa eleição, o eleitor usará muito a habilidade para improvisar, mudando de candidato até se fixar naquele que melhor proposta fizer para seu estômago.

É INFIEL? É PESSIMISTA OU OTIMISTA?

O eleitor brasileiro é fiel? No sentido abrangente, mais coletivo, a resposta é não. Há grupamentos fiéis, particularmente entre estratos médios, formadores de opinião, segmentos engajados nos partidos, setores religiosos, imigrantes de sangue anglo-saxão e pequenos núcleos ideológicos. Os grandes contingentes são amorfos, alheios ao cotidiano político e capazes de mudar de posição, de acordo com as circunstâncias e as necessidades mais imediatas. Diz-se que os franceses amam a liberdade, como a amante, a quem se ligam apaixonadamente ou de quem se separam depois de uma violenta briga; que os ingleses amam a liberdade como a uma esposa fiel, em quem confiam e com quem mantém uma sólida relação, mesmo sem volúpia e atração; e que os alemães amam a liberdade como a uma abençoada avó, para a qual reservam o melhor cantinho perto da lareira, onde costumam esquecê-la.

Já os brasileiros amam a liberdade como amam as muitas namoradas que costumam dispor, no vigor dos 18 anos, quando dedicam a cada uma o espaço de uma noite por semana. A infidelidade do eleitor tem a ver com a incultura política que semeia florestas de desinteresse pelos espaços nacionais, incluindo os centros mais evoluídos. Basta lembrar que as mesmas grandes parcelas de eleitores da periferia de São Paulo que elegeram Jânio Quadros, também escolheram Luiza Erundina e ainda votaram em Paulo Maluf, nas campanhas em que se tornaram prefeitos da Capital. Nas veias eleitorais, corre um sangue versátil, inseminado nos tempos da Colônia. A sinuosidade, a desconfiança, a versatilidade, a capacidade de adaptação aos espaços são traços de nossa cultura, decorrentes das grandes lutas pela conquista do Interior, no início da colonização. A luta pela sobrevivência, a pressão da natureza e o mundo de hostilidades formaram o cinturão mutante que aperta o estômago nacional, sujeitando-o às circunstâncias e ao meio ambiente.

Os vetores de decisão do eleitorado são influenciados, ainda, por dois elementos que parecem paradoxais. De um lado, um pessimismo galopante, que se faz presente nas locuções de que o “o país não tem jeito, estamos todos perdidos, não vale a pena lutar por isso etc”. De outro, um otimismo extravagante, que evidencia a superlativa dose emotiva da alma nacional. Nesse sentido, as alavancas de força se apresentam nas festas de época e fora de época, no Carnaval, nas folias cotidianas dos bares e até na esteira da bagunça que, em maior ou menor grau, transparece na fisionomia das cidades, na improvisação dos motoristas de trânsito e na linguagem desabrida das ruas.

O pessimismo induz o eleitor a se afastar dos políticos, que, indistintamente, ganham a pecha de “ladrões e corruptos”. Os perfis populistas e messiânicos é quem levam a melhor, ao sintonizarem a linguagem com a imprecação popular. Não por acaso, o chavão “bandido bom é bandido morto, lugar de bandido é na cadeia”, toca forte no coração das massas. Já o otimismo de nuances ufanistas, cuja origem remonta os passos iniciais da descoberta das belezas naturais, da exuberância da flora e da fauna, marca o caráter nacional com os selos da displicência, da sensualidade, do ócio e da pachorra. As grandezas do Brasil afloram e são apresentadas pelas embriagadas quantificações de nossos potenciais: o maior carnaval, o maior São João do mundo, o maior produtor disso e daquilo, as mulatas mais bonitas, as melhores iguarias e algumas maravilhas do mundo.

Se o pessimismo é oposicionista, o otimismo tropical é situacionista, ou, em outras palavras, tende a reforçar o status quo. Infere-se, assim, que a vitória do Brasil na Copa do Mundo será a catarse do ano. E a catarse, com suas vertentes de emoção, vibração, êxtase e felicidade, acaba purgando pecados acumulados. Trata-se de uma formidável estrutura de consolação da sociedade. A conseqüência se fará presente na maior complacência dos eleitores ao analisarem os quadros de amargura e angústia que os afligem. O voto da permanência situacional favorecerá, evidentemente, o candidato situacionista.

Se o eleitor gosta de mudar de posição, se navega tanto pela nau do pessimismo quanto pelo navio do otimismo, o que se deve aguardar é uma decisão que terá a influência das ondas oceânicas nas margens do pleito. Mar turbulento revirará o estômago e o passageiro pessimista irá para a oposição; mar tranqüilo levará o eleitor para a continuidade de uma travessia sem turbulências. O leitor que tire as conclusões.

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