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Porandubas Políticas 726

Abro a coluna com uma fábula.


Em cinco anos, tudo pode ocorrer

Um poderoso sultão, sábio entre os sábios, possuía um camelo muito inteligente. Obedecia a todas as ordens que nem precisavam ser emitidas de viva voz. Faltava-lhe apenas o dom da palavra. Esse detalhe entristecia sobremaneira o sultão. Um dia, decidiu convocar o Grande Conselho e chamou o grão-vizir.

- Quero que ensine meu camelo a falar! - Mas isso é impossível. - Cortem a cabeça dele! Tragam-me o adjunto!

Mesma afirmação de desejo sultanesco, mesma resposta, mesma sentença. A cena repetiu-se diversas vezes e cabeças rolaram. Exasperado o sultão declarou.

- Aquele que ensinar meu camelo a falar será meu grão-vizir.

Silêncio! O sultão repetiu a exortação. Eis que surgiu um humilde ajudante de cozinheiro. Disse:

-Dá-me, ó incomparável senhor, um prazo de cinco anos, e farei falar teu camelo.

Estupefação geral. Seguida do cumprimento da promessa.

-Doravante, és meu grão-vizir! Mas se falhares, sabes o que te espera! - Bem sei!

Encantado, o jovem fez profunda reverência e saiu correndo para dar a boa notícia à esposa.

- Infeliz, acabas de assinar tua condenação. - Não é bem assim, meu bem. Pedi cinco anos.Você sabe que muitas coisas poderão acontecer em cinco anos : morre o camelo, morre o sultão...

(Fábula enviada pelo atento Alexandru Solomon). Nada a ver com as próximas eleições.


Queixumes

O amigo de academia militar de Bolsonaro, general Luiz Eduardo Ramos, não gostou de ser defenestrado da Casa Civil. Está desconsolado com a transferência para a Secretaria de Governo, onde estava Onyx Lorenzoni. Dia que como soldado cumpre missão. Mas não há coração que resista a uma promoção para baixo. O general é uma cascata de queixumes.


Guedes resistirá?

Paulo Guedes, de amplo Posto Ipiranga e pau para toda obra, no início do governo, tem sido transformado ao longo do tempo, em mera bomba de gasolina. Bolsonaro corta seu poder. Desmembra seu poderoso ministério da Economia. Guedes é vaidoso. Quer se agarrar nas ancas do poder. Mas resistirá a tanta perda? Tenho dúvidas.


Quarta marcha

O governo Bolsonaro passa a quarta marcha. Antes do tempo. Quer colocar o carro na avenida da campanha. Faz um acordão com o Centrão, abre as comportas da administração, e fecha os olhos para as prioridades. O impulso fisiológico de Bolsonaro em direção ao Centrão pode ser um tiro no pé. O Centrão é pragmático. Se o navio começar a afundar, seus participantes serão os primeiros a desembarcar.


Pequeno conto

"Misia Sert dominava a arte de caçar moscas. Estudava pacientemente os modos destes animais até descobrir o ponto exato em que havia de introduzir a agulha para pregá-las sem que morressem. Exímia na arte de fazer colares de moscas vivas, entrava em frenesi com a celestial sensação do roçar das patinhas desesperadas em seu colo." Pequeno conto de Elias Canetti em Suplicio de Las Moscas.


A máxima de Anacaris

A máxima de Anacaris, um dos sete sábios da Grécia, começa a ser reescrita por aqui: "As leis são como as teias de aranha, os pequenos insetos prendem-se nelas e os grandes rasgam-nas sem custo".


O novo triângulo do poder

Identifica-se, em nossas plagas, o que Roger-Gérard Schwartzenberg cognomina de o novo triângulo do poder nas democracias, que junta o poder político, a administração (os gestores públicos) e os círculos de negócios. Essas três hierarquias, agindo de forma circular, cruzando-se, recortando-se, interpenetrando-se, passam a tomar decisões que se afastam das expectativas do eleitor. A cobiça dos parceiros - gestores, empreendedores privados e núcleos políticos das três instâncias federativas - desafia ainda mais o Estado. É o que tem mostrado a CPI da Covid-19.


O joio e o trigo juntos

Não é fácil separar o joio do trigo e perceber as tênues linhas que distinguem o bem comum do bem privado. A percepção é nítida diante de exageros como casos de superfaturamento, vícios de licitações, apropriação escancarada da coisa pública e flagrantes de ilícitos, por meio de gravações autorizadas pela Justiça. Pode-se aduzir que a lupa dos órgãos de controle ajusta mais o foco nessa planilha. Há a considerar, ademais, que os descaminhos na estrada pública têm sido alargados pela evolução das técnicas.


Aos amigos, pão

A ladroagem é embalada por um celofane tecnológico de alta sofisticação, diferente dos costumes da Primeira República, quando a eleição do Executivo municipal assumiu relevo prático. Naquele tempo, o lema da prefeitada era: "Aos amigos, pão; aos inimigos, pau". O Brasil da atualidade sobe degraus na escada asséptica, apesar das camadas de sujeira que ainda entopem canais da administração pública. O MP acendeu luzes sobre os esconderijos e parece movido por entusiasmo cívico, haja vista a disposição com que se aferra à missão de proteger o patrimônio público e social. O presidente que prometia combate incessante à corrupção cai nas malhas dos negociantes.


A estética

O código estético é o primeiro a se infiltrar na mente. Você imaginaria Jesus Cristo sem a barba? E Abraham Lincoln, seria o mesmo sem a barba? Que tal um Gandhi cabeludo? Elvis Presley sem o topete teria o mesmo charme?


O milionário

"O milionário, ao ser perguntado quanto dinheiro era o bastante, replicou 'só um pouquinho mais'. Reconhecia uma característica essencial da vida humana. Há razões positivas pelas quais o poder tende a ser uma bola de neve e é dado àqueles que o possuem". (Kenneth Minogue)


Personagens


Eduardo Leite

O governador do Rio Grande do Sul terá voz mais forte no processo político. A conferir.


João Doria

Faz uma boa administração em São Paulo. Mas o automaketing o engole.


ACM Neto

Em processo de enfraquecimento. Não tem mais a força de tempos atrás.


Mourão

O general Mourão tem merecido respeito. Expressa palavras de bom senso. O presidente continua a dar estocadas no vice. Disse, por último, que "às vezes ele atrapalha". Até quando o general vai aguentar os tiros dados de frente e por trás?


Kassab

Gilberto Kassab sobe, devagar, a montanha de prestígio. Vai transformando o PSD em um grande partido.


Ciro Nogueira

Conheci o pai dele, Ciro, em 1986, quando coordenei a campanha eleitoral de Freitas Neto (PFL/PI). Ciro era um iniciante. O pai, deputado Federal, um grande comerciante. O filho é mais articulado. O pai, falecido, era um perfil sério e de poucas palavras. E descortina grande futuro para o filho. Como ministro da Casa Civil, Ciro servirá o feijão com arroz.


Pacheco

Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, tem boa expressão, é moderado, e exibe boa presença. Pode vir a ser protagonista importante em 2022.


Arthur Lira

Se pleitear a candidatura ao governo de AL, em 2022, será o favorito.


Alckmin

Geraldo Alckmin está em vias de carimbar o passaporte para chegar ao Palácio dos Bandeirantes em 2022 pelas asas do PSD de Kassab.


Rodrigo Garcia

Bom perfil, mas ganhará muita rejeição. Com jeito, pode escalar o morro.


Caiado

Candidato à reeleição. Tem capacidade de arregimentação.


CPI da Covid-19

Serão muitos os crimes a serem atribuídos à gestão Federal. O que a PGR fará? Arruma-se uma gigantesca pizza. A não ser que a crise política suba o pico até meados de outubro.


Responder sem confessar

Nesses tempos de Covid-19, até parece que os depoentes leram a cartilha dos hereges. Seguinte: No tempo da Inquisição, os hereges desenvolviam dez truques para responder sem confessar:


1) A primeira consiste em responder de maneira ambígua. 2) O segundo truque consiste em responder acrescentando uma condição. 3) O terceiro truque consiste em inverter a pergunta. 4) O quarto truque consiste em se fingir de surpreso. 5) O quinto truque consiste em mudar as palavras da pergunta. 6) O sexto truque consiste numa clara deturpação das palavras. 7) O sétimo truque consiste numa autojustificação. 8) O oitavo truque consiste em fingir uma súbita debilidade física. 9) O nono truque consiste em simular idiotice ou demência. 10) O décimo truque consiste em se dar ares de santidade.

(Manual dos Inquisidores - escrito por Nicolau Eymerich em 1376. Revisto e ampliado em 1578 por Francisco de La Peña)


Epílogo

"Um homem se propõe a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos, povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naus, de ilhas, de peixes, de moradas, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu rosto". (Jorge Luis Borges)

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