Pequenas lições de uma grande política

A classe política está apavorada com seu futuro. Coisa lógica diante dos estarrecedores índices que colocam os políticos, ao lado dos banqueiros, nos últimos degraus da credibilidade pública. Não resta outra coisa aos representantes do povo, neste momento de preparo da revisão constitucional, que uma imersão no terreno da ética e uma passagem por lições sobre o estado social do país. A análise sobre as razões que os jogam no fundo do poço da descrença poderá se transformar na chave para reencontrar o tempo perdido. O roteiro abaixo tem a intenção de colocá-los na sala de aula da credibilidade.


Promessas - Não se deve prometer o que não se poderá cumprir. O país exige sinceridade. Os espaços das alegorias, as promessas mirabolantes, os planos fantásticos foram embora com Collor. Qualquer tentativa de recuperar esse terreno trará dissabores.


Identidade - Um político deve ter identidade, personalidade, eixo. Uma coluna vertebral torta gera desconfiança. A imagem que um político projeta não poderá ser muito diferente de seu conceito. Quando isso ocorre, a percepção da opinião pública esmaga o representante. Coluna vertebral reta incorpora as costelas da lealdade, da coerência, da sinceridade, da honestidade pessoal e do senso do dever.


Representação social - Representar o povo significa escolher as melhores alternativas para seu bem estar. Uma decisão orientada exclusivamente pela intenção de adoçar as dores das periferias angustiadas não vai longe. O que se dá ao povo, hoje, poderá ser retirado, amanhã. Um político sério se preocupa com rumos permanentes e medidas condizentes com as possibilidades das administrações (federal, estadual e municipal).


Sapiência - Sapiência não significa vivacidade. Sabedoria é mistura de aprendizagem, compromisso, equilíbrio, administração de conflitos, busca de conhecimentos, capacidade de convivência e decisão racional. A vivacidade é a cara feia do fisiologismo, tumor que até o povo simples começa a lancetar.


O cheiro do povo - O cheiro do povo invade as ruas, os ônibus, os escritórios, as fábricas, o campo. Até os candidatos elitistas ampliam espaços, ante a ameaça de isolamento. Certa homogeneização cultural ocorre. O povo sabe olhar em silêncio para quem está a seu lado. O trabalho (estafante...?) de Brasília não impede que um político sinta o cheiro agridoce das vielas escuras do interiorzão.


Esconderijos - Não dá mais para alguém se esconder. A corrupção, é claro, não acabará. Mas é preciso atentar para o fato de que as denúncias sobre negociatas e trocas de favores ilícitos constituem o prato da mídia. Alguém pode estar se guiando por um cardápio indigesto e amanhã todo mundo ficará sabendo.


Discurso - O discurso que vinga é um conjunto de propostas concretas, viáveis, simples e de metas temporais. Sua adaptação ao momento é fundamental. A população dispõe, hoje, de entidades que a representam em diversos foros, algumas delas com atuação política tão densa quanto o Congresso. Resta ao político se apoiar nesse universo, que está muito perto das bases.


Simplicidade e modéstia - Um homem público não precisa se vestir com a roupa de Deus. A honraria que os cargos conferem é passageira. Mandatos pertencem ao eleitorado. Ser simples não é arranjar cenas de crianças no colo, comer cachorro quente na esquina ou gesticular para famílias nas calçadas. A simplicidade é o ato de pensar, dizer e agir com naturalidade. Sem artimanhas e maquiagens. O marketing da atualidade se inspira na verdade. (Ou, na pior das hipóteses, na versão mais verdadeira).


Estado e Nação - O político pode até lutar por um Estado diferente da Nação que o povo quer. A Nação é a Pátria, que acolhe, que confere orgulho ao povo, é o território onde os cidadãos se sentem bem e gostam de viver e constituir um lar. O Estado é a entidade técnico-jurídico-institucional, comprimida por interesses e dividida por conflitos, que pessoas de diversas classes estão sempre a criticar. Aproximar o Estado da Nação constitui a missão basilar da política. Esse é um compromisso cívico inegociável. O Brasil de novos horizontes passa por esses contornos.



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