Paper: a comunicação nas instituições políticas


Vale recordar, de início, que a política, desde eras remotas, acompanha os fios da comunicação. Um ente se agarra ao outro, na extraordinária simbiose que amalgama o poder da palavra e a força das ideias. Na Antiguidade, os ideários fluíam pelo gogó e pelo gestual dos governantes, rito de que são ícones Demóstenes (384-322 a.C.), político que venceu a gagueira forçando-se a falar com seixos na boca e se tornou o maior orador grego, e Cícero (106-43 a.C.), advogado e mestre de civismo, famoso também pelo discurso contra o conspirador Catilina e considerado o maior orador romano. Da ágora, a praça central de Atenas, e do Fórum romano, o discurso político avolumou-se, saindo do Estado-Cidade para o Estado-Nação e agregando força na esteira dos ciclos históricos da comunicação: a era Gutenberg, no século 15 (criação da imprensa), a Galáxia Marconi (invenção do rádio, em 1896), que impulsionou a escalada de demagogos como Hitler e Mussolini, até chegarmos ao Estado-espetáculo, adornado com as luzes televisivas, a partir dos anos 1960, e com a imagem esbelta de John Kennedy. Nesse ciclo, a estética impõe-se à semântica e os atores políticos passam a incorporar elementos dramáticos ao desempenho, redundando não raro em performances mirabolantes com a finalidade de cativar e mobilizar as massas.


A política no Estado moderno ganha operacionalidade com a implantação do governo representativo pela Constituição francesa de 1791 ("os representantes são o corpo legislativo e o rei") e o corpo social faz-se representar por um grupo de pessoas que passam a agir de acordo com a "vontade geral". O modelo, porém, passou a sofrer questionamentos. A crítica era a de que o sufrágio universal não teria sido capaz de melhorar a condição de vida de milhões de pessoas. Lançava-se ali a semente da representação de grupos específicos, derivando daí a democracia de grupos e facções, de que são exemplo, na atualidade, os Estados Unidos. Aí, o voto enraíza-se nas localidades, servindo de escudo de grupos e setores. É também de Bobbio a crítica de que a democracia não tem cumprido suas promessas, entre elas, a educação para a cidadania, a justiça para todos e a segurança social. Não sem razão, a democracia representativa atravessa tempos continuados de crise, com o desvanecimento de partidos e doutrinas, o arrefecimento das bases, o declínio dos Parlamentos, fatores que, em contraponto, contribuem para fortalecer o Poder Executivo.


Dentro dessa moldura, insere-se a "civilização eletrônica". No vazio entre o universo político e a esfera social, emergem novos polos de poder, a partir das entidades de intermediação social e, ultimamente, das redes sociais. O portentoso aglomerado que navega na internet é um caleidoscópio do pensamento social, particularmente de segmentos que trafegam no meio da pirâmide (ou do losango, como já se descreve o formato da geometria social brasileira). Encaixa-se na metáfora da pedra jogada no meio do lago, criando marolas que se desdobram até as margens. Não se nega que a "sociedade eletrônica" vive a infância, época das primeiras descobertas e da curiosidade. Banha-se de águas lúdicas. Daí não se poder ainda falar em democracia participativa, eis que milhares de internautas se valem das redes para enviar mensagens pessoais, postar fotos, divulgar vídeos, baixar músicas, instalar aplicativos e até namorar. A matéria política, que aparece a conta-gotas, indica que o revigoramento do espírito público tem muito caminho pela frente. Por enquanto não dá para apostar no "potencial revolucionário" das tecnologias modernas da informação.


Se o engajamento político da sociedade não adere à dinâmica das redes, é porque a esfera representativa também não tem sabido delas se utilizar. O forte da tecnologia eletrônica é a capacidade de gerar interação dos elos do sistema, políticos e eleitores. O que se observa, pelo menos por enquanto no caso brasileiro, é o uso da web para veiculação unilateral de mensagens, a maioria de caráter autopromocional, a revelar o "chapa-branquismo" de nossa política. Quando o sistema for usado em prol do jogo interativo, poder-se-á acreditar numa base social envolvida com a política.


Resta, agora, indagar: qual o futuro da política dentro do Estado-Espetáculo?



O ESTADO-ESPETÁCULO

O papel da Comunicação nas Instituições Políticas tem, como pano de fundo, as variáveis que fundamentam o papel do Estado e da política na vida contemporânea. Daí a necessidade de se fazer breve digressão sobre a radiografia do Estado moderno.


Vivemos a plena Era do Estado-Espetáculo, onde os atores políticos desempenham os mais variados papéis: heróis, Pais da Pátria, estrelas da constelação política. Vivemos a plena Era da Imagem. Que se sobrepõe à verbalização das opções políticas. Vivemos a plena Era do cinema do Poder. O ciclo do vedetismo no poder. O ciclo das ilusões. Estamos atravessando a larga avenida do brilho e dos spots publicitários, da fosforescência televisiva, dos media consultants.


Quais os fundamentos que explicam o Estado-Espetáculo?

Comecemos com o interesse humano pelo espetáculo, pela diversão.

Há, na sociologia política, uma hipótese que pode muito bem explicar certos fenômenos que mexem com o estado d’alma da população. A sobrecarga das demandas sociais aumenta as frustrações com o desempenho do poder público, levando grupos a procurar mecanismos de recompensa psicológica. Não necessariamente por isso, mas certamente tendo alguma coisa que ver com essa abordagem, imensos contingentes nacionais são atraídos por conteúdos diversionistas que funcionam como contrapontos compensatórios nos momentos de crise. E quanto maior a crise, maior será o sucesso dos olimpianos da Cultura de Massa – atores, atrizes, reis, rainhas, celebridades de todos os calibres, incluindo os atores políticos, agentes dos evangélicos e padres carismáticos.


À fragilidade do Estado-provedor do bem estar contrapõe-se o Estado-espetáculo, com seu teatro de formas lúdicas e elementos ficcionais. Trata-se de um território deteriorado, com instituições frágeis, conteúdos sociais amorfos, descrença geral na política, carente de cidadania, mas aberto à pirotecnia da mídia e à banalização dos costumes.


São bastante visíveis os sintomas de profunda crise, expressa pela deterioração dos serviços públicos essenciais, principalmente nos capítulos da segurança, educação, saúde e habitação. A sociedade passa a cumprir missão do Estado, arcando com o alto custo de uma segurança privada. Os “exércitos” privados se multiplicam empurrando as forças públicas para um segundo plano. A marginália se expande e o medo se espraia, entrando nos horizontes de todos os segmentos.


Essa moldura explica os casos escatológicos exibidos em programas populares, além de mecanismos catárticos para diversionismo das massas.

Ícones de um momento de descrença geral, porta-vozes religiosos e místicos usam a esteira da aeróbica do Senhor para comover multidões, vestindo a liturgia religiosa com um manto espetaculoso, banalizando a doutrina e o dogma ao nível do universo tecnetrônico (mistura de tecnologia e eletrônica) e dando sentido ao conceito mcluhaniano de que o meio é a mensagem.


Não há como deixar de se constatar a disfunção narcotizante do efeito teatral sobre o psiquismo de grupos que, ao buscarem na dança religiosa, um resgate de fé, alienam-se na dormência que os ritos, os signos e os ensaios coletivos provocam. Que a liturgia dos atos é importante para criar estados de animação, não se discute. Transformá-la em matéria principal para segurar a fé constitui um grande risco. O processo de estandardização litúrgica dos credos, infelizmente, é o retrato mais que acabado de um tempo em que o principal dá lugar ao acessório. É inacreditável a competição entre católicos-carismáticos e evangélicos para ver quem faz o melhor espetáculo.


O Estado-espetáculo mexe com a cabeça e introjeta tentáculos até em territórios religiosos, fazendo adormecer a cidadania. Pois um cidadão que se acostuma a viver no mundo ficcional acaba transformando a versão em verdade e o meio em fim. Sem segurança, sem saúde, com educação precária, sem serviços essenciais básicos eficientes, o cidadão fica fragilizado e perde autonomia. E se perde autonomia, atenua o sentido crítico e a vontade de fazer valer direitos. Por outro lado, os gastos sociais do Estado tendem a ser direcionados mais para os setores com poder de pressão do que para os segmentos menos favorecidos.


Por isso, as massas procuram encontrar equilíbrio nas manifestações coletivas e no ludismo, seja nos esportes, seja na programação grotesca e humorística da TV. Os líderes do povo não são mais perfis proeminentes portando valores essenciais, como decência, respeitabilidade, honra, ética e civismo. São figurantes televisivos com porretes na mão, personagens exóticas, elementos canhestros, uma gente que faz do drama a comédia, da dor o escárnio e da escatologia o alimento rotineiro.



MUDANÇAS NAS ORGANIZAÇÕES POLÍTICAS E SOCIAIS

Quais são as balizas que fundamentam a nova cidade-mundo? Vejamos alguns fenômenos:

a) A sociedade industrial é substituída pela comunidade mundial de informação – As ferramentas tradicionais e rústicas da civilização industrial – século XVIII – são substituídas pelas teias e redes eletrônicas que escancaram o universo do conhecimento e da expressão.


b) O mundo entra na era da globalização econômica – A globalização fez romper as fronteiras nacionais. As economias se interpenetram em um jogo de interesses recíprocos e conveniência. Um novo paradigma invade os espaços mundiais. Urge entender as mudanças nos sistemas políticos e sociais. Já não temos nas ruas o conflito de classes. O conceito de proletariado cede vez às massas difusas, compostas por minorias étnicas e de gênero, classes médias rebaixadas, jovens que “vivem uma vida pior que a de seus pais”, imigrantes e moradores de regiões sem infraestrutura de serviços. A nova composição que enche as ruas insufla os pulmões do planeta sob o fermento de enormes carências da urbe. Podemos também classificar esse capital global como produto do sistema que o cientista social Roger-Gérard Schwartzenberg designa de tecnodemocracia. Ou seja, é a moeda que serve a um triângulo que junta o sistema político, a alta administração do Estado e os círculos de negócios. As mazelas geradas por esta nova concepção capitalista, centrada em volumosos capitais transnacionais, provoca impactos violentos sobre o tecido social, atingindo, sobretudo, as classes médias, cujas condições de vida descem vertiginosamente a escada da degradação. O paradoxo se estabelece. Nos Estados Unidos, onde despontaram como os arquitetos do maior edifício democrático do universo, os contingentes médios enxergam o Governo tirando dinheiro dos contribuintes para salvar os bancos, deixando-os à míngua. A concentração de capital se adensa. Em 1980, 1% do topo da pirâmide ganhava 12% da renda de Nova Iorque; hoje, o mesmo número abocanha 44% de toda a sua riqueza.


Ao lado do adensamento do capital, a globalização deflagra uma revolução no sistema de cognição da comunidade internacional. O toque mágico é o acesso a informações tempestivas, que propicia a milhões de usuários das redes sociais integração de sentimentos e códigos. A conquista tecnológica não tem, porém, o condão de padronizar gostos, a não ser em campos restritos de interesse comum, como o entretenimento. Cada povo usa a ferramenta para uma expressão própria. Os embates que ocorrem em países centrais e periféricos, em democracias ou em regimes ditatoriais, condizem com as aspirações das comunidades. São manifestações plurais. Os jovens pobres e excluídos dos bairros londrinos desmontam seu habitat sob motivação diferente dos grupos que acorrem às ruas do mundo árabe.


c) Expansão da civilização do Espetáculo - A importância da informação, hoje, é diretamente proporcional à base da abordagem espetaculosa que pode gerar. E hoje essa capacidade é produzida pelo ator político, de qualquer esfera. Torna-se ele um ator em cena no teatro da política. É sabido que entre a arte (dramática ou política) e o artifício, existem relações. Os políticos como os atores teatrais exercem papéis. Explica-se, assim, como a teatralização da vida pública gera simulação, mentiras ou falsas versões. Sob o abrigo da representação, os atores políticos desempenham também roteiros.


Alguns tentam fazê-lo de maneira decente, inspirando-se no ideário original da política, que é o de bem servir à comunidade; outros exageram na interpretação do papel, fazendo uma figuração artificial e distante das expectativas de suas bases. E, por fim, existem os figurantes que, a pretexto de defender a verdade, a sinceridade, a expressão do coração, acabam cometendo tolices. A política incorpora uma liturgia própria, com ritos, costumes, semântica e estética. Seus integrantes precisam seguir à risca ditames, valores e princípios que a inspiram. Sem fazê-la um teatro de ilusão. Ou palco para representação de sua ópera bufa.


d) A crise da democracia representativa e emergência da democracia participativa – A democracia representativa está em crise. O poder das coisas suplanta o poder das ideias. A hipótese pode parecer um disparate. Inserida, porém, no bojo da sociedade contemporânea – emoldurada pela expansão econômica, despolitização, esfacelamento de doutrinas, luta por interesses setoriais e grupais, administração de coisas materiais-, começa a ganhar sentido. O território da política é o que mais sofre os efeitos dessa nova ordem. E a razão é a crise que assola o modelo de representação. O declínio dos partidos corrói a imagem dos mandatários e faz nascer múltiplos aglomerados, os quais, por sua vez, procuram substituir a esmorecida instituição política. E por que esta definha?


Porque a democracia deixou de cumprir seus compromissos para com a sociedade, como ensina Norberto Bobbio. A descrença no sistema representativo faz emergir pólos de agregação e contestação fora do Parlamento. Nesse vácuo desponta uma nova designação na fisionomia das nações democráticas: democracia supletiva. O termo, adotado pelo sociólogo Roger-Gérard Schwartzenberg e que indica a existência de uma sub-estrutura em auxílio à democracia representativa, cobre a constelação de entidades que fazem micropolítica, a política do varejo, das pequenas coisas.


Como se avalia a força desse fenômeno entre nós? Por meio da composição da organicidade social. Tanto sob a dimensão vertical (classes sociais, grupos e categorias profissionais), quanto sob o prisma horizontal/espacial (regiões centrais e periféricas), espraia-se vigorosa onda formada por entidades focadas para a intermediação de interesses: associações, sindicatos, federações, clubes, núcleos, movimentos etc. Na esfera das nações, o Brasil desponta com um vasto território coberto pela democracia supletiva. Dispomos de uma rica moldura de entidades. Algumas instâncias são bem aparelhadas, a mostrar grupos atuantes seja nas retaguardas corporativas – defesa de interesses de setores negociais– seja na vanguarda da cidadania, que abriga o debate sobre temáticas coletivas, como sustentabilidade, igualdade de gêneros, luta contra as drogas, proteção da criança e do adolescente, segurança pública, entre outras. O que chama a atenção na teia organizativa é o poder de mobilização de certos núcleos, particularmente os que atuam na base da pirâmide social, hoje mais parecida com um losango. Temos, já, 101 milhões de brasileiros na classe média.


e) Mudanças na composição da pirâmide social – A imagem da pedra que, ao ser jogada na lagoa, forma ondulações que correm até as margens e, depois, retornam ao centro, já não serve para explicar o poder de influência das classes médias. As ondas concêntricas que saem do meio da pirâmide perdem impacto porque se defrontam com uma “nebulosa social”, partindo das margens em direção ao centro, formada por grupamentos periféricos, que se organizam, ganham força e autonomia. A afluência das margens, já identificada por Peter Drucker, que estuda o impacto da globalização na vida das organizações, se reforça com a erosão da classe média alta, o desemprego, as novas formas do trabalho, a mentalidade cosmopolita expandida pelas novas tecnologias do conhecimento (Internet) e, em países como o Brasil, programas de redistribuição de renda. Esses fatores contribuem para estreitar as distâncias entre as classes B, C e D, e estas, sob ambiente de inflação baixa e maior acesso à educação e ao crédito, passam a se inserir fortemente no mercado consumidor. Esta nova base se prepara para abrigar no futuro uma gigantesca classe média. Um estudo do Goldman Sachs indica que este agrupamento no Brasil, Rússia, Índia e China, hoje com 200 milhões de pessoas, deverá atingir a casa dos 2 bilhões em 20 anos.


O processo de transformação profunda nas relações sociais está em pleno curso aqui e alhures e seus efeitos sobre a esfera política já começam a se fazer sentir. Para compreendê-lo melhor, restauremos a moldura dentro da qual se operam as mudanças. Inicialmente, vale lembrar que a classificação social no Brasil é bastante fluida por sermos um território com grandes diferenças. Ser milionário numa região pode equivaler a pertencer à classe média baixa noutra.


Escolhamos, porém, o critério de renda, o mais usado para definir as divisões. Assim, a classe A teria renda superior mensal a 20 salários mínimos; a classe B, entre 10 e 20 salários; a classe C, entre 4 e 10; a D, entre 2 e 4; e a E, com renda inferior a 2 salários mínimos. Por esse critério, os ricos estariam na classe A, a classe média alta ficaria na faixa B, a classe C seria da classe média típica, e os de baixa renda estariam na classe D, ficando os pobres na E. O desmanche dessa composição vem lá de trás.


A classe média se robustece no fluxo do vigoroso processo de industrialização e da expansão da economia capitalista ao longo de oito décadas no século XX. Supervisores, gerentes, técnicos, profissionais liberais, pequeno empresariado, artesãos e comerciantes emergiam como poderosa força social. Mas a crise econômica dos anos 80, caracterizada por carência de recursos, encolhimento da produção, enxugamento do Estado e precários serviços, abriu o ciclo de declínio desta classe, cujas referências eram paradigmáticas.


A globalização das economias e seus efeitos – reengenharia na administração e flexibilização das relações trabalhistas – reduziram empregos formais. A partir daí, desenvolve-se um processo de degradação que, segundo estudos da Unicamp, fez a classe média perder, nos últimos anos, 1/3 de sua renda. Em 1980, 64,6% da classe média eram compostos de assalariados; em 2000, este número era de 55%; em 80, a classe entrava com 31,7% na PEA (População Economicamente Ativa); em 2000, caiu para 27,1%. Indignados, sem tradição de lutas sindicais, os núcleos do meio da pirâmide canalizaram a indignação para a política, surgindo daí o simbolismo da pedra que faz marolas no lago social. Efetivamente, a formação da opinião pública ancorava-se na expressão originada nos núcleos racionais. Ao correr das últimas duas décadas, as classes médias, porém, se esgarçaram e estiolaram suas forças. Perderam espaço político. Enquanto o eco de sua voz definhava, fortalecia-se o grito das periferias.


Nessa vertente entram os ingredientes que alimentam a “nova classe”. Primeiro, o braço social do Estado, que expande o poder de consumo das massas. A isso, soma-se a corrente das aposentadorias aumentadas. A seguir, o cartão de crédito chega a bolsos de uma clientela mais humilde. O varejo se aquece. Há poucos anos, o comércio da rua 25 de março, em São Paulo, registrava R$ 17 bilhões ou 40% de todos os shoppings centers do país, enquanto o mercado de luxo movimenta cerca de R$ 5 bilhões por ano. Parcelas populacionais das margens passam a ter acesso a novas fontes de cultura e informação. Inaugura-se um processo de migração entre integrantes da classe média típica (C) e da classe média alta (B). Expande-se uma “psicologia global”, que respira ares de autonomia e independência, algo que o sociólogo francês Robert Lattes definiria como “auto-gestão técnica”, ou, noutros termos, as massas já sabem o que querem e como agir. E o pragmatismo incorpora-se a seu sistema decisório. Instala-se um leilão de trocas: quem dá menos, quem dá mais? A micro-política – o remédio barato, o transporte fácil, a escola pública perto de casa, a rua asfaltada, a segurança no bairro, o lazer pago em pequenas prestações – passa a ser o discurso que provoca interesse.


E assim a pirâmide social ganha novo traçado. O topo continua com o acentuado grau de inclinação. O grau de inclinação do meio da pirâmide, porém, é mais largo, na perspectiva de uma classe média alta que se comprimiu e de uma classe média típica que se expande com a incorporação de extratos mais de baixo. Este é o novo ambiente social em que se opera a política.

f) O fim do carisma – Um dos conceitos mais polêmicos na política é o do carisma. O carisma exerce extraordinário poder. Poder de mobiliza. Poder de cooptar. Poder de gerar empatia e simpatia. Quem é carismático? Há algum ator político, em especial, que possa ser considerado um modelo carismático? Essa resposta deve ficar do leitor. Para ajudá-lo, tentarei esboçar algumas características que integram o perfil dos carismáticos, não antes de lembrar que, nas últimas décadas, a organização política passou a ser gerida como um empreendimento negocial, submetida a modelos de gestão e a técnicas de planejamento, que acabam eliminando a seiva da esplendorosa árvore do carisma, onde floresciam flores e frutos regados com o calor da sensibilidade e da intuição.


Há um brilho especial nos atores que emanam carisma. Um brilho que pode ser o foco do olho, o esgar da expressão ocular, o modo de gesticulação, a fala – mansa ou apressada –, os trejeitos, a maneira de vestir, o tom expressivo, o teor do discurso, a composição visual, ou algumas dessas partes conjugadas e, ainda, todas elas juntas, integrando o conjunto semântico (substância discursiva) ao conjunto estético (substância icônica, visual). Os perfis carismáticos imbricam, de forma harmoniosa, forma e conteúdo. E, sobretudo, transmitem uma imagem de espontaneidade, que difere, substancialmente, dos modelos retocados pelo marketing exacerbado.


Percebe-se uma figura carismática quando ela chama a atenção pela maneira como se apresenta e fala. De repente, cria-se entre ela e os receptores (assistentes, ouvintes, telespectadores) uma empatia, que é um fenômeno além da simpatia. Nos processos empáticos, a fonte expressa a capacidade de ingressar na maquinaria de pensamento e interpretação do receptor, de forma tão intensa, que este não apenas entende tudo que é exposto, mas aceita as mensagens introjetadas. Gera-se um circuito de interesses recíprocos entre fonte e interlocutor a ponto de se considerarem “amigos de longa data, velhos conhecidos”, por mais que eles tenham se conhecido há poucos minutos. A pessoa carismática cria a seu redor círculos de energia, atraindo pequenos grupos e platéias. É ouvida, respeitada, amada ou, até, odiada. Mas não passa em brancas nuvens como a maior parte das pessoas.


Jesus Cristo, Buda, Maomé, Gandhi são exemplos de figuras carismáticas. O Cristo que conhecemos chama a atenção pelo visual, pelo discurso, pelas parábolas, pela história maravilhosa de seu nascimento e criação e, sobretudo, pelo calvário e sacrifício para salvar a humanidade. É uma história deslumbrante cercando uma imagem plena de virtudes. Gandhi encantava pelo despojamento, pobreza e sabedoria. Mas, no catálogo do mal, há pessoas que também podem ser consideradas carismáticas. Hitler é uma delas. Tratava-se de uma usina de surpresa, emoção, susto, empolgação, furor e identificação com valores de uma sociedade em ebulição (raça, poder, força, dominação). Já o presidente Kennedy encantava com o charme pessoal que irradiava juventude, poder, riqueza, fatores que confluíam para o sonho norte-americano da Pátria-berço da prosperidade e bem estar social.


Getúlio Vargas tinha carisma, a partir do jeito sulista de se expressar, do estilo de governar e das ações administrativas que descortinaram a política de massas. Mas é Juscelino Kubitschek, com seu sorriso aberto e cordial, o nosso carismático político por excelência. E, ainda para arrematar, era embalado pela modinha mineira “Como pode o peixe vivo viver fora d’água fria?” Jânio também tinha carisma. Os gestos, as palavras pronunciadas com os “és” fechados, a voz da autoridade firmada, reconhecida e respeitada, o jeito desabrido de ser, tudo em Jânio chamava a atenção. Jânio era uma incógnita. Lula é o último dos políticos carismáticos do país. Por que é interessante analisar os perfis carismáticos? Porque, entre outras coisas, numa campanha, quando dois candidatos estiverem disputando a vitória por uma questão de meio palmo, aquele que apresentar um pouquinho mais de aura carismática reúne mais chances de ganhar.

g) A democracia na sociedade digital - O dado impacta: já há mais de 2 bilhões de pessoas conectadas às redes sociais eletrônicas, quase um em cada três habitantes do planeta. A cada minuto, milhares de novos internautas ingressam no circuito tecnológico da informação, enquanto a assinatura de telefones celulares já passa da marca dos 5 bilhões. O mundo está plugado.


O fenômeno suscita estudos, debates e análises nas frentes de pesquisas sobre comportamento social, mas um aspecto chama a atenção pela importância que passa a ter para o desenvolvimento político das nações. A questão pode ser posta desta maneira: a Era da Informação Total, caracterizada pela interligação das comunidades mundiais por meio das infovias da web, contribuirá para o aperfeiçoamento da democracia? Ou, se quisermos puxar a questão para o território brasileiro, o que significa a existência no País de 50 milhões de internautas, número que lhe confere posição destacada no mapa mundial das redes? Poderemos contar com a melhoria dos padrões políticos, na hipótese de que parcela acentuada do eleitorado comece a socar os primeiros tijolos de uma democracia participativa plugada na eletrônica?

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