O Estado-Espetáculo

Gaudêncio Torquato



O papel da Comunicação nas Instituições Políticas tem, como pano de fundo, as variáveis que fundamentam o papel do Estado e da política na vida contemporânea. Daí a necessidade de se fazer breve digressão sobre a radiografia do Estado moderno.

Vivemos a plena Era do Estado-espetáculo, onde os atores políticos desempenham os mais variados papéis: heróis, Pais da Pátria, estrelas da constelação política. Vivemos a plena Era da Imagem. Que se sobrepõe à verbalização das opções políticas. Vivemos a plena Era do cinema do poder. O ciclo do vedetismo no poder. O ciclo das ilusões. Estamos atravessando a larga avenida do brilho e dos spots publicitários, da fosforescência televisiva, dos media consultants.


Quais os fundamentos que explicam o Estado-espetáculo?


Comecemos com o interesse humano pelo espetáculo, pela diversão.

Há, na sociologia política, uma hipótese que pode muito bem explicar certos fenômenos que mexem com o estado d’alma da população. A sobrecarga das demandas sociais aumenta as frustrações com o desempenho do poder público, levando grupos a procurar mecanismos de recompensa psicológica. Não necessariamente por isso, mas certamente tendo alguma coisa que ver com essa abordagem, imensos contingentes nacionais são atraídos por conteúdos diversionistas que funcionam como contrapontos compensatórios nos momentos de crise. E quanto maior a crise, maior será o sucesso dos olimpianos da Cultura de Massa – atores, atrizes, reis, rainhas, celebridades de todos os calibres, incluindo os atores políticos, agentes dos evangélicos e padres carismáticos.


À fragilidade do Estado provedor do bem-estar contrapõe-se o Estado-espetáculo, com seu teatro de formas lúdicas e elementos ficcionais. Trata-se de um território deteriorado, com instituições frágeis, conteúdos sociais amorfos, descrença geral na política, carente de cidadania, mas aberto à pirotecnia da mídia e à banalização dos costumes.

São bastante visíveis os sintomas de profunda crise, expressa pela deterioração dos serviços públicos essenciais, especialmente nos capítulos da segurança, educação, saúde e habitação. A sociedade passa a cumprir missão do Estado, arcando com o alto custo de uma segurança privada. Os “exércitos” privados se multiplicam empurrando as forças públicas para um segundo plano. A marginália se expande e o medo se espraia, entrando nos horizontes de todos os segmentos.


Essa moldura explica os casos escatológicos exibidos em programas populares, além de mecanismos catárticos para diversionismo das massas.

Ícones de um momento de descrença geral, porta-vozes religiosos e místicos usam a esteira da aeróbica do Senhor para comover multidões, vestindo a liturgia religiosa com um manto espetaculoso, banalizando a doutrina e o dogma ao nível do universo tecnetrônico (mistura de tecnologia e eletrônica) e dando sentido ao conceito mcluhaniano de que o meio é a mensagem.


Não há como deixar de se constatar a disfunção narcotizante do efeito teatral sobre o psiquismo de grupos que, ao buscarem na dança religiosa, um resgate de fé, alienam-se na dormência que os ritos, os signos e os ensaios coletivos provocam. Que a liturgia dos atos é importante para criar estados de animação, não se discute. Transformá-la em matéria principal para segurar a fé constitui um grande risco. O processo de estandardização litúrgica dos credos, infelizmente, é o retrato mais que acabado de um tempo em que o principal dá lugar ao acessório. É inacreditável a competição entre católicos-carismáticos e evangélicos para ver quem faz o melhor espetáculo.


O Estado-espetáculo mexe com a cabeça e introjeta tentáculos até em territórios religiosos, fazendo adormecer a cidadania. Pois um cidadão que se acostuma a viver no mundo ficcional acaba transformando a versão em verdade e o meio em fim. Sem segurança, sem saúde, com educação precária, sem serviços essenciais básicos eficientes, o cidadão fica fragilizado e perde autonomia. E se perde autonomia, atenua o sentido crítico e a vontade de fazer valer direitos. Por sua vez, os gastos sociais do Estado tendem a ser direcionados mais para os setores com poder de pressão do que para os segmentos menos favorecidos.


Por isso, as massas procuram encontrar equilíbrio nas manifestações coletivas e no ludismo, seja nos esportes, seja na programação grotesca e humorística da TV. Os líderes do povo não são mais perfis proeminentes portando valores essenciais, como decência, respeitabilidade, honra, ética e civismo. São figurantes televisivos com porretes na mão, personagens exóticas, elementos canhestros, uma gente que faz do drama a comédia, da dor o escárnio e da escatologia o alimento rotineiro.

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