Ciclos da política


Um dos maiores pensadores belgas, o jornalista e cientista político David Van Reybrouck lembra esses ciclos:


Antes de 1800

Do período feudal à época absolutista, comanda a aristocracia.

O poder pertence ao soberano. Atribui-se sua autoridade à origem divina. Com conselheiros nobres (cavaleiros, membros da corte), ele dita as leis.

Não há esfera pública.


1800

A Revolução Norte-Americana e a Francesa limitam o poder da aristocracia e instauram eleições para dar voz à soberania popular. A autoridade não vem mais do alto, mas de baixo. O direito a voto é ainda restrito à elite. O debate público acontece, sobretudo, nos jornais.


1870-1920

Duas evoluções cruciais por toda parte: surgimento de partidos políticos e instauração do sufrágio universal. As eleições tornam-se uma luta entre grupos com interesses divergentes que procuram representar a maior fatia da população possível.


1920-1940

A crise econômica do período entreguerras coloca a democracia representativa em alta-tensão. Caem disjuntores aqui e acolá. Experimentam-se novos modelos políticos: o fascismo e o comunismo sendo os principais deles.


1950

A democracia representativa é surpreendentemente reestabelecida. O poder esta nas mãos dos grandes partidos políticos. O contato com o cidadão é feito através de uma série de organismos intermediários (sindicatos, corporações, em alguns casos estabelecimentos de ensino e mídias privadas). Há grande fidelidade partidária e os resultados das urnas são previsíveis. A mídia (rádio e televisão) pertence ao Estado.


1980-2000

Dois desenvolvimentos decisivos: desfazem-se os organismos intermediários e a mídia comercial ganha poder. O sistema eleitoral torna-se instável. À medida que a esfera pública se preenche com atores do setor privado (a mídia pública também adota a lógica do mercado), deteriora-se a fidelidade partidária. Os partidos políticos não são mais os principais representantes da sociedade civil, e sim meros órgãos da periferia do aparelho do Estado. As eleições transformam-se em uma disputa midiática para conquistar eleitores (indecisos).


2000-2020

As redes sociais e a crise econômica colocam a democracia representativa novamente sob pressão. A nova tecnologia traz autonomia, mas coloca o jogo eleitoral sob ainda mais pressão: a campanha eleitoral tornou-se permanente. O exercício do poder sofre de febre eleitoral, sua credibilidade está sempre à prova. A partir de 2008, a crise financeira joga mais lenha na fogueira. Prosperam o populismo, a tecnocracia e o antiparlamentarismo.

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