A sujeira nas vestes da política


A política não é um fim em si mesma. É um sistema-meio para administrar as necessidades do povo. Sendo assim, não deve ser escada para promover pessoas nem meio para facilitar negócios. Como sistema, desenvolve a capacidade de responder aspirações, transformar expectativas em programas, coordenar comportamentos coletivos e recrutar para a vida pública quem deseja cumprir uma missão social. No Brasil, isso ainda é utópico. A política é um dos maiores e melhores negócios da Federação. O empreendimento é a conquista do mandato; o produto político é a intermediação; e o mercado cobre um território com 27 Estados (com o DF) e nichos de interesses distribuídos em três esferas: federal, estadual e municipal.

O negócio da política mexe com cerca de 146 milhões de consumidores, que formam o contingente eleitoral. Para chegar até eles, um candidato gasta, em média, R$ 15 reais por eleitor, quantia que pode ser três a quatro vezes maior se o político for iniciante e rico. Uma campanha para deputado federal em São Paulo não sai por menos de R$ 3.000.000,00. Alguns conseguem chegar ao Parlamento com somas pequenas. Celebridades, esportistas, artistas. A maioria, porém, gasta bem mais que a soma dos salários em quatro anos de mandato. A questão é: se a campanha política no Brasil é tão dispendiosa e se os candidatos gastam acima do que ganham, por que se empenham tanto em assumir a espinhosa e sacrificada missão de servir ao povo? Será que há muito desvio entre o espírito cívico de servir e o sentido prático de se servir?


É arriscado inferir sobre as ações e os comportamentos do nosso corpo político, até porque grande parcela do Congresso tem atuado de maneira firme na defesa de seus representados. Sofre, injustamente, críticas por conta da corrupção cometida por companheiros. Mas não podemos deixar de registrar a incoerência das casas parlamentares. Aprovam-se projetos que acabam onerando o Erário. Não há preocupação com gastos perdulários.


Outro sistema que vive nas cercanias da política é a indústria do superfaturamento. As obras públicas, nas três malhas da administração (federal, estadual e municipal), geralmente são feitas com um “plus”, um dinheiro a mais. Parcelas desses recursos se somam às verbas da indústria do achaque e vão para os cofres das campanhas, formando o círculo vicioso responsável pelo lamaçal. Não é isso que está na mira da Operação Lava Jato? As coisas só acontecem porque nos postos chaves estão pessoas de confiança dos políticos. Eis aí a resposta da charada. A malha de dirigentes abre espaços, possibilitando contratos, facilitando negócios, costurando o tapete financeiro que cobre a sala de estar da política. O PIB informal da política é algo escandaloso, chegando a superar a imaginação dos alquimistas financeiros mais sofisticados.


Esse é um cobertor difícil de ser lavado. Por isso, contem milhões de ácaros que se alimentam das camadas de pele do corpo político. Ninguém vê, mas todos sabem que eles estão lá. São responsáveis pela falta de renovação. Na velha cama, suja e embolorada, dormem perfis identificados com a manutenção do status quo. Com dinheiro e poder, prolongam a vida pública. O ciclo é fechado: a sujeira alimenta os ácaros - agentes e intermediários - e estes acariciam sua matriz alimentícia - os patrocinadores - perpetuando e multiplicando formas de corrupção.


Não é qualquer detergente que pode limpar os porões da política.

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